memória traidora…
A memória é importante mas pode trair-nos, precisamente quando não nos abre à novidade… Isto revela-se nos mais elementares aspetos da nossa vida, como, por exemplo, no simples ato de comer…20
A memória é importante mas pode trair-nos, precisamente quando não nos abre à novidade… Isto revela-se nos mais elementares aspetos da nossa vida, como, por exemplo, no simples ato de comer…20
Dizemos a nós próprios e aos outros, com frequência: “vai correr bem!”. Há um lado quase cruel nesta frase, neste desejo, que nos aponta para a ideia de que, na realidade, “não vai correr bem”… Isto é, a vida e o jogo do acaso e da necessidade, a gestão complexa de liberdades humanas e o pulsar da natureza, faz com que muitas coisas não corram como desejaríamos, até porque vamos morrer, nós e os que nós amamos. Há uma nesga de salvação neste dilema: e se correr bem for ‘tirar proveito’, crescer, abrir-se à novidade, “aconteça o que acontecer”?…
Por vezes atrasamos-nos, como na publicação deste ‘post’ (…), porque andamos cheios de coisas.
Tu e eu temos uma tendência ancestral: enchemos com muita coisa, um vazio que ainda não tocamos…
A primeira pergunta do “ajudador” é: onde estás? Não é “quem és?”, “para onde vais?” ou, menos ainda, “para onde deves ir?”…
A ESTRELA
Queria
ser um pedaço
daquelas palavras.
Parei por semáforos.
O fumo suspenso
gerava a densa
poluição.
Olhei,
a toda a volta no céu,
e nada vi.
Olhei de novo,
vasculhei.
vi, finalmente,
uma estrela,
disse olá a Deus…
e ficou verde!
…in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.
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POETA ESQUECIDO
Sou um poeta esquecido!
A mancha da agenda
calou o grito da alma.
Não que a planta não cresça.
Os compromissos
taparam as flores.
Não me culpo
nem me castigo pelo silêncio.
Quando a vida passa
e o cavalo da aposta é
o que está mais à mão,
nessas alturas, como agora
paro e olho para mim,
selecciono o epicentro
e sinto que está na hora
de recolher novo centro
e não mais correr assim.
in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse.
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A TI QUE SOFRES
A ti
que sofres
não te peço
que não chores.
Que não chore
não há quem.
Que chores,
não te peço também.
Peço-te…
que chores… bem!
in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.
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Às vezes lutamos com o tempo. Não queríamos estar aqui e agora, mas adiante, noutro instante ou noutro lugar. Esta ‘birra’ leva-nos a que o tempo nos ultrapasse. Seria bem mais libertador ‘surfar’ no tempo…
Tive o privilégio de fazer algumas viagens. O turismo, entretanto, virou moda (ou mesmo mania…). Hoje estou mais rendido ao turismo que a realidade me oferece, porventura mais centrado no meu país, na minha região, no meu quintal, naquele detalhe da natureza e dos rostos cruzantes, aqui tão perto. A realidade impõe-se bela e diversa e, vendo bem, o espanto do olhar está menos na circunstância e na geografia, e muito mais nos meus olhos…
A vida está cheia de tensões. Fazer/não fazer, dizer/não dizer, permitir/anuir, agarrar/largar, etc. Seria ingénuo entender a liberdade como a fuga destas tensões. Ser livre é procurar encontrar ‘o mais’ que espreita em cada tensão e a essa arte se chama discernimento.