Dogmas, bóias e cientificismo

Adquiri um vício orante pessoal, que me recoloca no cerne cristão: sempre que invoco a omnipotência divina acrescento, para não esquecer, “omnipotente… no amor”.

 

J. C. Paiva, Dogmas, bóias e cientificismo. Site PontoSJ. 25 de maio de 2018. Disponível em

https://pontosj.pt/opiniao/dogmas-boias-e-cientificismo/

 

 

Dogmas, bóias e cientificismo

A palavra dogma, como todas as palavras, a bem dizer, carrega consigo uma carga forte e múltiplas abordagens. As palavras, neste tema com em tantos outros, são sempre tentativas, aproximações… São importantes (as palavras), mas é bom estarmos conscientes da precariedade do artesanato léxico.

Na sua raiz etimológica grega, que não é necessariamente a mais relevante, a palavra dogma remete-nos para uma crença, uma opinião ou mesmo uma aparência. Em religião, e no caso católico, em particular, o dogma assume um lugar mais intenso e afirmativo, mesmo assim não isento de ambiguidades. São entendidos como dogmas as “verdades de fé” estruturais, intrinsecamente imutáveis mas que foram sendo desbravadas e explicitadas ao longo do tempo na história e na tradição da Igreja. Existe, portanto, na sua génese, um traço de dinamismo retroativo, desde logo, na própria edificação da dogmática, que pode ser igualmente emprestado ao presente e ao futuro. É certo que os dogmas não são opiniões teológicas pessoais e são para ser assumidos (principalmente vividos…) pelos crentes católicos, mas a dogmática só na aparência se identifica com rigidez. Rahner vai talvez ainda mais longe quanto a este radical dinamismo dizendo que uma definição dogmática é não só um resultado ou uma conclusão que oferece precisão e clareza mas é principalmente um ponto de partida que tenta ‘dizer’ o inefável.

A analogia com que mais simpatizo para os dogmas é equipará-los a bóias. Neste cenário, a vida seria uma navegação em mar aberto e, por vezes, é preciso bóias para a nossa “salvação”. Há várias bóias a que podemos recorrer. Acreditamos na sua existência, mas é admissível que nos socorramos em conformidade com o nosso estilo e com as nossas necessidades. A dimensão comunitária, já que em Igreja não se aponta à salvação individual mas à salvação de todos (ou melhor ainda, à salvação de Deus), também pode estar presente nesta analogia já que será possível, desejável e agregador, que muitos de nós nos agarremos à mesma bóia.

Arriscaria escrever que há umas bóias mais relevantes que outras, pelo menos em certas fases da vida pessoal, comunitária e da própria história da humanidade e da Igreja. E, convém dizer, há uma bóia primeira, talvez a maior, talvez a mais importante de toda a história da salvação. Essa bóia pode traduzir-se no dogma dos dogmas: “Deus é Amor”. Todos os outros pilares dogmáticos daqui bebem.

Esta bóia de salvação é uma assunção que alguns de nós entendem assumir sem discussão, como bóia mas quase como “amarra”. É uma prisão escolhida e, paradoxalmente, uma porta de liberdade. Se tenho fé, é porque me foi oferecida a possibilidade de viver apoiado num pressuposto assumido de que Deus existe e é um Deus de amor, de relação. Não quero, deliberadamente, navegar sem esta bóia e este dogma, nas entrelinhas de todos os outros, confere-me liberdade. É a vida e não propriamente a moral, que me convida a esta crença.

Os católicos declaram este dogma basilar no credo que celebram em comunidade, quando dizem “creio em Deus Pai todo poderoso…”. Este Pai (o que é relatado no abraço do filho pródigo) é o próprio amor. Por motivos pedagógicos e para evitar equívocos, confesso que preferia um ajuste semântico-litúrgico no credo, dizendo, antes, “creio em Deus Pai todo amoroso…”.

Uma das linhas de corte colocada em cima da mesa quando se fala de ciência e religião é a questão do dogma. O argumentário de certo ateísmo de contexto científico é o de que a ciência, ao contrário da religião, não se baseia em dogmas mas antes num dinamismo que a tudo se abre e que tudo discute. No seu olhar metodológico, estamos de acordo que a ciência se move num questionamento intrínseco e até num dinamismo de tentativa de falsificação constante das teorias vigentes. Mas no seu essencial, convém dizer, a ciência carece também dos seus “dogmas” de partida. O químico e filósofo Michael Polanyi convida-nos a tomar nota da necessidade daquilo a que chama uma “rede fiduciária” de partida no construto científico, chamando à atenção de que tem que existir uma confiança intrínseca de partida, em certo sentido inquestionável, quando se faz ciência. Numa visão mais histórico-crítico-filosófica podem apontar-se três pilares (dogmas?) para a ciência, o ontológico, o epistemológico e o ético, que se podem reproduzir nesta tríplice afirmação: “a realidade existe, é possível conhecê-la e é bom saber como funciona”.

Num plano diferente estão certas linhas (dogmáticas…) cientificistas. O cientificismo carateriza-se por uma inspiração intelectual de sobrevalorização da ciência e do seu papel social e civilizacional. Não se trata de entender que a ciência é relevante, a vários níveis, para a evolução da humanidade (nisso estamos todos de acordo). É ir um pouco mais além e entender, fomentar e militar a ideia de que a ciência é a melhor via para progredir – a expressão “a melhor” é o busílis. Duas importantes referências contemporâneas para este cientificismo são, no plano filosófico, Daniel Dennett e, no plano prático (por via da Biologia e do evolucionismo), Richard Dawkins.

O mais irónico na “pureza antidogmática” de certa postura cientificista é que há uma aparente tolerância com a diversidade de ideias, a surpresa da natureza e a abertura ao mundo tal qual ele é. Neste sentido, a ciência cientificista, embora em plano de superioridade, dialoga com a cultura e com outros saberes, acomodando a racionalidade artística e outras áreas do conhecimento. Mas tal generosidade tem pelo menos um limite óbvio, que é em si próprio um dogma e que ignora liminarmente a racionalidade teológica: não há espaço para o diálogo com a religião, tida apenas como um inimigo a (com)bater.

Do meu lado, sem complexos, assumo os meus dogmas, que são os dogmas trazidos no barco da tradição da Igreja, vividos, ditos e reditos no dinamismo das palavras, preservando a sua essência basilar. Por algum motivo, foco-me no dogma principal. Adquiri um vício orante pessoal, que me recoloca no cerne cristão: sempre que invoco a omnipotência divina acrescento, para não esquecer, “Deus omnipotente… no amor”. Posto isto, com os outros, com a realidade, com o mundo e com a ciência, todos os diálogos e possibilidades são viáveis e desejáveis. Agostinho sintetizou-o bem em pouquíssimas palavras: “ama e faz o que quiseres”.

JP in Ciência Espiritualidade Textos 18 Março, 2019

regulação de nascimentos, química e natureza

Uma radical e não dinâmica interpretação da encíclica Humanae Vitae pode cristalizar numa posição segundo a qual só é moralmente aceitável a anticoncecionalidade que recorre aos chamados métodos naturais. Talvez não tenha que ser assim…

 

J. C. Paiva, Regulação de nascimentos, química e natureza. Site PontoSJ (que se recomenda…). 20 de abril de 2018.

https://pontosj.pt/opiniao/regulacao-de-nascimentos-quimica-e-natureza/

 

 

Regulação de nascimentos, química e natureza

Alguns dos aspetos da proposta moral católica têm tido obstáculos acutilantes nos últimos tempos. Em parte, porque há uma tendência intrínseca, externa à Igreja, para certo modernismo ou vanguardismo, ou mesmo porque sociologicamente se regista uma apropriação pouco aprofundada, com base apenas nos comportamentos da maioria. Outra fatia da responsabilidade, porventura significativa, tem a ver com dificuldades de reflexão, elaboração e comunicação a partir do seio da própria Igreja. No caso da moral sexual, a situação é particularmente frágil.

É bom notar que a moral cristã terá de ter sempre o seu toque radical e exigente, não fosse inspirada nos critérios próprios de Cristo. A Doutrina Social da Igreja, para convocar um exemplo simples e óbvio, é de uma grande exigência e vai claramente contra a corrente na sociedade consumista e individualista em que vivemos. Talvez seja, porém, mais bem comunicada, mais cristãmente essencial e mais consensual do que muitas frentes da chamada ‘moral sexual’.

Um dos reflexos destas dificuldades comunicativas é que na mente de muitos ouvintes, incluindo os cristãos, se coloca ‘tudo no mesmo saco’. E, tipicamente, considera-se o saco de tal forma esquizofrénico em relação ao mundo atual, que se ignora, pura e simplesmente, tudo o que é proposto. A elaboração poderia ser colocada nestes termos: “sobre padrões ético-sexuais, as propostas católicas são de tal forma mal apresentadas e desproporcionadas, que não consigo sintonia, elaboro (ou não elaboro…) os meus próprios critérios e atuo e opino na minha conformidade personalista.”

Em particular, no horizonte, fica a séria possibilidade de, por exemplo, serem consideradas ao mesmo nível de (i)relevância: a) o aborto; b) as relações sexuais pré-matrimoniais e c) a anticoncecionalidade. A surdez generalizada, face a tamanho descalabro de quem clama no deserto, é muitas vezes equivalente em relação a estes três aspetos. Deixaremos para outra reflexão a nossa opinião inegociável sobre a condenação radical do ato abortivo. Registamos também algum valor para as entrelinhas positivas de potencial valor do segundo aspeto: critérios de proporcionalidade na linguagem sensual/sexual, clareza da primazia do amor, balanceamento de verdade entre o que se é e o que se diz com o corpo e incondicionalidade de assunção das consequências de qualquer entrega. Há aqui uma simpatia por certa formulação realista e igualmente exigente, num formato do género “diz com o teu corpo, na justa proporção, a verdade que és. E podes usar como medida da tua entrega a preparação para receber e acolher da circunstância tudo o que se possa gerar, de cumplicidade e de vida”.

A questão da regulação dos nascimentos é, na nossa opinião, mais complexa. Uma radical e não dinâmica interpretação da encíclica Humanae Vitae pode cristalizar numa posição segundo a qual só é moralmente aceitável a anticoncecionalidade que recorre aos chamados métodos naturais. Sobre este assunto, ocorrem-nos os seguintes aspetos:

1- O duplo sentido associado às relações sexuais num casal tem coerência interna sólida: os teores unitivo e procriativo daquela entrega amorosa de corpos são coerentes com a antropologia cristã e os insights bíblicos de certa cosmovisão, que a Igreja oferece e edifica.

2- A ideia de que só “a natureza” garante uma gestão responsável e moralmente enquadrável é muito discutível. Pode até haver certa simpatia pelos métodos naturais, do mesmo modo que se aprecia passeios nas montanhas e produtos biológicos na alimentação. Isto é, os argumentos não têm qualquer vínculo moral e estão até mais perto de uma posição algo hippie face à vida e aos recursos naturais.

3- É cientificamente muito discutível, extravasando o plano moral, a ideia segundo a qual “o que é natural é bom”. A química dá-nos boas respostas: o veneno de uma rã azul venenosa da austrália é natural, muito natural… mas mata um humano em poucas horas, mesmo que em doses pequeníssimas. Também a cafeína ou o álcool podem ser extraídos de produtos naturais, porém, ingeridos em grandes quantidades, podem igualmente matar. A exposição ao Sol em horas impróprias e em grande extensão, Sol ‘natural’, bem entendido, também pode fazer muito mal… Os exemplos são infindáveis mas centram-nos bem na constatação de que as interações que estabelecemos com a realidade são físico-químico-biológicas e seria frágil pensar que há átomos ou moléculas naturais e átomos ou moléculas artificiais ou (mano/nano)facturados. São as mesmas entidades atómico-moleculares em contextos diferentes…

4- Compreender-se-ia mal que uma dor de cabeça curada com aspirina (fruto da Graça, através do trabalho intelectual, científico e tecnológico de gerações sucessivas) tivesse menos valor moral do que se fosse curada com um produto natural com ácido acetilsalicílico… A tecnologia, neste contexto, é irrelevante e sem qualquer indução ética. Da mesma forma, não tem sentido hipervalorizar o ‘natural’ como supremacia moral, incluindo na contracepção.

5- Poderá haver casais que se sentem bem e em progresso com o recurso exclusivo a métodos naturais, quer pelas simpatias ecológicas da situação, quer por certa disciplina rotinada de contenção que entendam como positiva ou por outros fatores que considerem equilibrantes. Mas sem superioridade moral.

6- A abertura ou fechamento à vida é a mesma, precisamente a mesma, quando se tenta acertar com um período não fértil da mulher ou quando se usa um preservativo. As contas do método podem errar e o  preservativo pode estar mecanicamente avariado. Se resultar uma vida, ambos os casais terão de viver a tensão ética de acolher ou não o filho e o casal é inequivocamente convidado a dizer sim.

7- Também a ofensa ao primado do amor pode ser praticada com ou sem a natureza: é igualmente reprovável usar preservativos “a torto e a direito”, coisificando outros, como forçar uma relação sexual, porque é “dia sim” na regulação natural.

8- Valeria a pena, a este propósito, a Igreja usar o seu “tempo de antena sobre o assunto” com uma argumentação sólida, exigente e eticamente estruturada que propusesse aos casais cristãos o uso de métodos anticoncepcionais não abortivos.

9- Detalhar excessivamente a questão da regulação dos nascimentos incorre numa linha quase ridícula de “prescrevisionismo”. No limite caricatural, pode perguntar-se sobre a validade moral de certos detalhes íntimos, como as posições de cópula…

Em todos os casos, parece-nos existir um caminho e um progresso óbvio nestas questões: por mais confortável que possam ser as posições rígidas, formalistas e legalistas, que não oferecem nuances e mantêm firmes e hirtos os seus militantes, há que apostar na formação dinâmica das consciências. Não para que tudo se relativize e se perca a radicalidade da proposta cristã, mas para que se incorporem e se resignifiquem as escolhas com base numa pedagogia não moralista. Para que nos embalemos na tradição (crítica) da Igreja, sem subtrair o primado da validação misericordiosa e contemplando a avaliação positivamente subjetiva de cada caso, de cada discernimento, de cada história, de cada terreno sagrado humano…

 

JP in Ciência Educação Textos 18 Fevereiro, 2019

A insustentável leveza da incompatibilidade entre ciência e religião

“A insustentável leveza da incompatibilidade entre ciência e religião”

O deus em que não acredita Peter Atkins é inacreditável: ainda bem que ele é não crente nesse deus e eu, com entusiasmo, acompanho-o nesse ‘ateísmo’.

Artigo completo em

https://www.publico.pt/2018/12/09/ciencia/opiniao/-insustentavel-leveza-incompatibilidade-ciencia-religiao-1853629

Ciência e religião: Conflito, independência, diálogo e integração

J. C. Paiva, Ciência e religião: Conflito, independência, diálogo e integração. Site PontoSJ (que se recomenda…). 05 de outubro de 2018.

 

Disponível aqui

 

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As relações entre ciência e religião, ontem e hoje, são marcadas por certa tensão.

A ciência tem nos nossos dias um valor social impressionante. Tal circunstância, sem escamotear os óbvios benefícios da empresa científica, favorece o perigo de a transformar numa ideologia (cientificismo). Assim não deveria ser pois não podemos extrair, pela via filosófica, pelo seu saber ou pelas suas atividades, qualquer ilação ideológica à ciência. Pelo contrário, parte das enormes virtudes da ciência, no seu nascimento, no seu desenvolvimento e na sua prospetiva devem muito à sua independência dos regimes, das ideologias, das raças e crenças dos cientistas. Ajuda muito esta clarificação pois na maior parte das discussões desnecessariamente divergentes sobre ciência e religião, está (erradamente) a usar-se a ciência como uma ideologia. Muito ganham os cientistas em reconhecer as limitações deste tipo de conhecimento, que caminha como um olhar, entre outros, sobre a realidade cósmica, incluindo o homem. A par da ciência, outros questionamentos, como o ético, o artístico e o religioso, cruzam-se na nossa consciência pessoal e coletiva.

Tão venenosos como a ideologia cientificista são todos os fundamentalismos do tipo religioso.

Na tentativa de clarificar essa complexa relação, o físico americano Ian Barbour propôs, nos finais do século XX, quatro dimensões, a saber: conflito, independência, diálogo e integração.

1- Conflito.

As situações de conflito são conhecidas na história da ciência. O caso Galileo é sobejamente conhecido (não necessariamente bem compreendido, já que os conflitos gerados podem ter mais a ver com contextos históricos da reforma e contra-reforma do que com ciência e religião). Ainda hoje, nas redes sociais, em livros e no senso comum, há espaço de conflitualidade. Muitos desses aspetos residem em posições extremadas de materialismo científico e de fundamentalismo religioso, principalmente relacionado com a literalidade dos textos sagrados. Por vezes, sob uma capa aparentemente inofensiva, os comunicadores de ciência deixam passar alguns traços de fundamentalismo ideológico. É o caso do brilhante Carl Sagan que, a dado passo, escreve: “o Cosmos é tudo o que existe, que existiu e que existirá!”…

2- Independência.

Focados nas diferentes linguagens, metodologias, limitações e objetos de estudo podemos valorizar essas mesmas diferenças e associar independência (ou autonomia) a estas duas áreas: ciência e religião. Esta consciência de autonomia vem do tempo medieval, onde já se dizia que o livro da natureza e o livro da revelação são do mesmo autor (…) e, como tal, não se podem contradizer.  Inclui-se na independência da ciência o sacudimento de quaisquer secularismos. João Paulo II explicitou-o bem: “ciência e religião devem preservar a sua autonomia e a sua peculiaridade. Cada uma tem os seus próprios princípios e formas de proceder”. Podemos ter posições excessivas no que concerne à dimensão da independência, que colocam a tónica numa tal diferenciação que tange a esquizofrenia. Neste sentido, o físico Plank radicaliza a autonomia com a ideia de que ciência e religião são duas vias paralelas que só se encontram no infinito. Nem tanto, talvez haja algum entrançado..

3- Diálogo.

Se a dimensão de independência é tomada radicalmente, nem sequer há espaço para o conflito. O diálogo entre ciência e religião é possível e porventura necessário e útil porque há que construir pontes na diferença. Não dialogar (encrostados na radical autonomia) faria lembrar os casais que não discutem, não conflituam e não dialogam… porque não falam nos assuntos de potencial fraturante (condenação ao fracasso relacional, como sabemos…). Uma das formas de entender o manancial de diálogo entre ciência e religião é compreender estas realidade no contexto mais amplo da noção de cultura. O caldo cultural, onde se misturam a realidade da vida, as relações, a arte e tudo mais que disser respeito à humanidade, ai se entendem melhor as urgências dialogantes, incluindo aquelas que dizem respeito às diferentes perspetivas do olhar científico e do olhar religioso. A neutralidade não é boa conselheira… Apesar das diferenças nos seus aspetos ontológicos, epistemológicos e metodológicos, ciência e religião têm matizes comuns, correlações e paralelismos potenciais, concretamente face às grandes questões relacionadas, por exemplo, com a origem do universo e com a evolução humana.

4- Integração

A integração seria uma dimensão um tanto mais comprometedora entre ciência e religião. É, porventura, destes quatro enunciados, a área mais polémica. As teses integrativas arriscam beliscar a autonomia. Há exemplos de boas e mais duvidosas integrações. Parece-me cheia de potencial, por exemplo, a abordagem de Chardin que se inspira nas teorias da evolução para dar novos ventos à teologia, principalmente no que diz respeito ao pecado original. Já considero muito duvidosas, senão perniciosas, as influência da teoria do “design inteligente”, que estabelece veleidades integrativas com base numa perfeita confusão entre o objeto e a metodologia da ciência e as questões últimas que importam a fé. É bom, por isso, não omitir o que é diferente, preferindo, sempre que possível, a linguagem da analogia, em vez da inferência. Por exemplo, dizer: “assim como a espécie humana parece em constante evolução, podemos, por analogia, referir-nos aos dinamismos evolutivos da própria vida de Cristo” será mais prudente do que invocar, em excessividade integrativa ideias do tipo “como a ciência descobriu a teoria do big-bang, então existe Deus”.

A proposta de Barbour, um cristão da Igreja reformada que venceu o prémio Templeton, é bastante útil embora não elimine as ambiguidades: há ideias e argumentos que vistas de um certo ângulo, se situam numa área de conflito mas que, noutra perspetiva, poderão, por exemplo, ter certo caráter integrativo. Notar ainda que não há qualquer cronologia histórica (do conflito à integração) nem sequer juízo de valor sobre estas quatro dimensões. Nos nossos dias, há aspetos de algum conflito no terreno misto da ciência e da religião, no domínio ético, por exemplo, que são compreensíveis e têm de ser assumidos.

Há autores que preferem a explicitação de uma outra (quinta) dimensão, algures entre o diálogo e a integração, a que chamam complementaridade. Trata-se de uma abordagem curiosa, convidando a uma compatibilidade mutuamente potenciadora, como acontece, por exemplo, com a religião e a arte.

Sem, obviamente, dependermos da ciência para suportar a nossa fé, é também certo que esta forma de olhar e compreender o mundo que é praticada pelos cientistas nos pode induzir aprofundamentos de natureza religiosa. Notar que a ciência tem uma forte componente de procura e encontro com a beleza, na beleza que é o universo (assim também é com Deus, que é cúmplice do belo…).  Do ponto de vista filosófico, também o conhecimento científico pode levar-nos à religião, desde logo porque o mistério de conseguirmos tatear o funcionamento do cosmos nos pode convidar a encontrar uma causa última que justifique a nossa própria racionalidade. Subindo a parada, um mundo contingente e inteligível, como  constatamos e sentimos, abre hipóteses a um Deus necessário e racionalizável…

Educação, Ciência e Religião

Livro editado pela Gradiva, em co-autoria com Alfredo Dinis

Referência: A. Dinis, J. C. Paiva, Educação, Ciência e Religião, Gradiva, Lisboa, 2010.

Para adquirir o livro contactar: www.gradiva.pt

Nota: neste blog, pode haver pequenos textos constantes do livro, com etiquetas, disponibilizados ‘avulso’.

 

Da introdução:

Este livro é uma reflexão nas interfaces da percepção pública da ciência, da educação e da religião. Embora com utilidades específicas para formandos e formadores, destina-se também ao cidadão comum, uma vez que ciência e religião, de uma forma ou de outra, se cruzam com a vida e as inquietudes de muitas pessoas. Motivou esta obra a ideia de que muitos equívocos sobre ciência e religião têm afectado o relacionamento entre estas áreas. Ciência e religião, na convicção dos autores, sem ambiguidades, têm a ganhar com aproximação e diálogo. No ensino, em particular, faltam ferramentas para trabalhar estes temas de forma clara e numa linguagem simples. O presente texto pretende suscitar a reflexão e o debate sobre questões que se colocam na fronteira entre fé e ciência e são objecto de acesos debates em bases nem sempre objectivas. Apontam-se contribuições em bases de objectividade e rigor, quer no que se refere à ciência, quer no que diz respeito à religião em geral e ao cristianismo em particular.

O livro está organizado num conjunto de vinte perguntas às quais se tenta responder, ou melhor, dar pistas, a vários níveis: numa primeira abordagem apresenta-se um texto em linguagem acessível, associado a um cartoon. Numa segunda abordagem, desenvolve-se a resposta num texto mais elaborado, ainda assim não exaustivo, incluin-do-se bibliografia. Algumas palavras relevantes estão em negrito e encontram-se no glossário final. Inclui-se ainda, para cada secção, um conjunto de questões adicionais para debate. Estas questões podem ser usadas em variadas dinâmicas de grupo. Há um terceiro nível no sítio associado a este livro, em www.ecr.net. A par de mais e mais actualizada informação estimula-se a interacção com os leitores no blogue.

Muitos equívocos de fronteira entre ciência e religião e o seu ensino prejudicam uma ciência moderna e contextualizada e podem contribuir para uma religião infantilizante. Do lado religioso, muita ignorância e inflexibilidade têm alimentado imagens de Deus menos boas, incapazes de serem compreendidas e acolhidas na nossa cultura de conhecimento. Do lado da ciência, por outro lado, existem também inúmeros fundamentalismos, como se a ciência fosse resposta a todas as questões da Humanidade. Pretende-se superar estas situações e atitudes, que não favorecem a reflexão e o debate que aqui se propõe.

A par da abordagem científica que interroga e tenta entender o cosmos, está sempre em cima da mesa a questão do sentido da vida, para o qual a religião trilha caminhos. Para crentes e não-crentes, questões e saberes cruzam-se numa malha de ciência e religião. À religião importa ajudar a Humanidade a saber viver, enquanto à ciência importa saber explicar os fenómenos da natureza. Neste sentido, religião e ciência não competem, antes se complementam. Talvez possam, acreditamos, cooperar no objectivo maior de compreender o mundo e o sentido da existência humana.

Temos consciência de que usamos nos textos vários termos, como fé, Igreja, religião, Deus, espiritualidade, etc., que têm significados diferentes conforme o contexto. Não invalidando outras perspectivas, assumimos a nossa experiência reflexiva e vivencial de cristãos católicos.

Importa uma certa humildade: ciência e religião, em muitos cenários, respondem, tão-só, que não sabem. E o caminho de conhecer e dar sentido à vida é uma obra que cada um, que todos, ontem como hoje e amanhã, esculpiremos.

 

Índice da obra:

  1. As reflexões neste livro permitem-nos uma forma racional de ser religioso? …………………………………… 11
  2. O primeiro homem e a primeira mulher foram, de facto, Adão e Eva? …………………………………………… 19
  3. A teoria do Big Bang é compatível com a perspectiva cristã acerca da criação do universo, tal como vem narrada no Livro do Génesis? E o que existia antes
    do Big Bang? …………………………………………………… 29
  4. Àmedidaqueaciênciaavançaareligiãovaiperdendo espaço? …………………………………………………………… 35
  5. Qual é o papel das questões éticas na relação entre a ciência e a religião? ………………………………………….. 47
  6. Na Idade Média a religião prejudicou o progresso científico? ……………………………………………………….. 57
  7. Galileu foi pressionado para negar o movimento da Terra que era para ele uma evidência científica? ……. 69
  8. A mecânica quântica, com o indeterminismo a ela associado, pode ter alguma ligação com a religião? …. 77
  9. O cérebro e as emoções são estudados de forma científica, com algumas conclusões objectivas. Com o progressivo conhecimento do cérebro poderemos nós, humanos, vir a ser absolutamente previsíveis? ……… 89
  1. A inteligência artificial ameaça não só o homem mas
    a religião? ……………………………………………………….. 97
  2. Que implicações têm os desenvolvimentos científicos
    na filosofia e na religião? A religião tem «medo» da ciência? …………………………………………………………… 109
  3. A religião ou a ciência «proíbem» a existência de extraterrestres? ……………………………………………………. 119
  4. Asquestõesambientaisestãonaordemdodia.Oque
    a religião tem a dizer sobre os problemas da sustentabilidade da Terra? ………………………………………….. 129
  5. Que contributos podemos esperar da neuroteologia?…. 137
  6. Aciênciaajudaaenquadrarfenómenoscomoasaparições de Fátima? ……………………………………………… 145
  7. Os alquimistas procuravam a pedra filosofal. Esta procura tinha algum sentido? …………………………….. 155
  8. Pode defender-se a teoria da evolução e ao mesmo tempo acreditar em Deus? …………………………………. 161
  9. A religião, com as suas posições sobre sexualidade, é obstáculo à saúde pública, nomeadamente no que diz respeito à sida? ……………………………………………….. 175
  10. Muitos não-crentes defendem, legitimamente, as suas posições. Que argumentos/atitudes pode ter um crente perante os não-crentes? …………………………………. 183

Glossário ………………………………………………………………. 191

Notas biográficas dos autores ………………………………….. 205

 

 

Um exemplo:

As reflexões neste livro permitem-nos uma forma racional de ser religioso?

1.1 Primeiras pistas

Não há um caminho exclusivamente racional para compreender a fé e, muito menos, para se ser religioso. A religião e a ciência, neste sentido, têm objectivos e caminhos diferentes. O que não significa que a fé não tenha também uma dimensão racional.

Não é verdade que a racionalidade humana se reduza à racionalidade científica nem, por conseguinte, que as crenças humanas dignas de crédito sejam as que se baseiam neste género de racionalidade. Muitas das crenças humanas nas quais se fundamenta a vida das pessoas comuns baseiam-se no testemunho e no crédito que dão umas às outras. Não são o resultado positivo de qualquer teste científico a que essas crenças sejam submetidas.

Não há nenhuma prova científica de que a nossa mãe nos amou desde que fomos concebidos dentro dela. Não temos nenhuma prova científica de que somos o fruto de uma relação de amor autêntico entre o nosso pai e a nossa mãe. Não temos nenhuma prova filosófica ou científica de que Picasso foi um pintor excepcional, ou de que a música de Beethoven é superior à de Wagner, ou de que a poesia de Sophia de Mello Breyner tem um enorme valor. Não há nenhuma prova científica de que a eutanásia é a melhor opção para quem quer terminar a sua vida em determinadas circunstâncias. Os críticos de arte não fazem qualquer apelo a testes empíricos realizados segundo a metodologia científica quando têm de atribuir um prémio ao melhor filme no festival de Veneza, ou ao melhor romance, ou livro de poemas num concurso literário.

Poderíamos continuar a enumerar as áreas da vida humana nas quais a racionalidade científica não tem nem a única nem a última palavra.

Os seres humanos vivem numa complexa rede de relações interpessoais no interior da qual se estabelecem relações de confiança que nos levam a acreditar em muitas coisas que não são demonstráveis nem filosófica nem cientificamente. O cristianismo surgiu precisamente de uma teia de relações que se estabeleceu entre os primeiros cristãos com base nos antigos profetas do Antigo Testamento e em experiências dos contemporâneos de Jesus. Os cristãos acedem a Deus com base na experiência de encontro com Cristo ressuscitado feita pelos primeiros cristãos, experiência que fundamenta toda a tradição cristã e que se prolonga, nos nossos dias, na celebração comunitária da fé e na vida de oração pessoal, com as exigências práticas que daí derivam.

Isto não significa que as crenças dos cristãos não tenham qualquer base racional. Significa que há muito de racional nestas crenças, mas que se trata de uma racionalidade que não é sempre e só a da lógica ou a da ciência. A base testemunhal da fé cristã tem também um carácter racional, mas vai muito além dele, uma vez que a crença em Deus não é fundamentalmente uma teoria que se deva demonstrar, mas uma prática de vida. Uma sabedoria sujeita a crítica mas não ao teste da razão científica.

Ter fé está muito para além de acreditar na existência de Deus. Uma criança que está ao colo da sua Mãe não questiona a sua existência, antes goza o acolhimento maternal. A fé tem algo de semelhante: muitas vezes, o «colo de Deus» vem antes da «confirmação» da Sua própria existência…

1.2 Aprofundamento

A atitude de acreditar ou não em Deus, tem uma base racional, mas esta base não é suficiente. Não é do mesmo género da base racional da filosofia ou da ciência. Não existe nenhuma prova filosófica ou científica da existência de Deus. Toma-se aqui «prova» no sentido em que se demonstra, sem margem para dúvidas, por exemplo, que a Terra tem uma forma aproximadamente esférica e gira à volta do Sol. A racionalidade da fé baseia-se, entre outras coisas, no testemunho que chega a cada geração a partir dos primeiros crentes. Este é o género de prova que é normalmente aceite, por exemplo, nos tribunais. Além da evidência empírica (um corpo morto, por exemplo, no caso de um assassínio, uma arma com que foi realizado o crime, etc.), há a evidência testemunhal. O tribunal aceita em geral o testemunho das pessoas que poderão ajudar a chegar a uma conclusão objectiva sobre o autor do crime, conclusão em que se baseia o juiz para pronunciar a sentença. É claro que as testemunhas podem mentir, mas isto não significa que a prova testemunhal não seja considerada seriamente. A experiência religiosa de quem acredita em Deus tem por isso uma base testemunhal: é a relação que tenho com os outros cristãos e com Deus que me leva a dar-lhes crédito, isto é, a acreditar neles. O cristão não tem razões para não os acreditar, naquilo que constitui o núcleo da sua fé. Tem, pelo contrário, todas as razões para lhes dar crédito, mesmo tendo em conta que a história do cristianismo é feita de luzes e sombras.

A experiência dos primeiros cristãos está contida no Novo Testamento, que não é uma narração jornalística da vida de Jesus, mas uma profissão de fé n’Ele. Jesus não deixou nenhum escrito, e talvez ainda bem. Não precisamos de escritos abstractamente inspirados, «caídos do céu», mas de escritos que nos falem de Deus a partir da experiência de vida dos primeiros cristãos, do seu testemunho vivencial e credível. A Igreja Católica merece crédito. Merece ser acreditada e, por isso, os cristãos acreditam nela. Na sua história há momentos de luz e momentos de sombra. A Igreja Católica reconhece os seus erros. Em 12 de Março de 2002, o Papa João Paulo II pediu publicamente desculpa pelos erros desta Igreja: cruzadas, Inquisição, intolerância para com outras religiões e culturas, etc. Alguns não-crentes, que não dão crédito a esta Igreja, fixam-se apenas nos momentos de sombra. Mas a história da Igreja Católica está também iluminada, no passado como no presente, por momentos de luta pela verdade e pela justiça, pelos incontáveis actos dos que dão a vida pelos mais fracos, necessitados e oprimidos: nos campos de refugiados, nos cenários de guerra e de miséria, colaborando em projectos de desenvolvimento económico, social e cultural, etc. E tudo isto faz parte da racionalidade e da credibilidade da fé.

A imagem que os cristãos têm de Deus não tem nada a ver com a que muitos não-crentes criticam — e ainda bem que o fazem: um Deus cruel, sanguinário e hipócrita, um Deus-polícia, sempre à procura de me apanhar em falta para me ameaçar com a condenação eterna. Quem daria crédito a um Deus como este? Quem acreditaria nele?

O Deus a quem os cristãos dão crédito é a explicação última do universo e da vida, mas respeita a autonomia e a liberdade dos seres que criou. Não faz tudo porque toma a sério a nossa liberdade. Criou um universo em evolução e respeita a autonomia das suas leis e processos. Saberá tudo? Não saberá senão o que se pode saber? Saberá como vou decidir viver a minha vida nos próximos tempos? Espera para ver e respeita as decisões que eu tomar. A sua omnisciência, a sua perfeição, está mais no amar do que no saber, está mais no serviço do que no poder.

É este o Deus em quem os cristãos acreditam e confiam e a quem, por isso, dão crédito. Não sabem explicar muito sobre o que a Ele se refere, mas o pouco que sabem é suficiente para fundamentar a sua fé. Mais do que saber explicar, procuram saber viver de acordo com os valores cristãos. Deus tem mais a ver com a sabedoria do que com o saber. Acreditar em Deus relacional, pessoal e comunitariamente, na Igreja Católica, dá aos cristãos paz e sentido para a vida. Por isso mesmo, dão crédito a Deus e à Igreja. O fundamento desta crença é, pois, simultaneamente racional e relacional.

1.3 Referências bibliográficas

BORGES, A., Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo, Porto: Campo das Letras, 2007.

COELHO, E. P. e POLICARPO, J., Diálogos sobre a Fé, Lisboa: Ed. Notícias, 2004.

ECO, U. e MARTINI, C. M., Em que Crê quem não Crê?, Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000.

«Gaudium et spes», em Concílio Ecuménico Vaticano II. Documentos Conciliares e Pontifícios, Braga: Editorial A.O., 1983.

GUITTON. J., As Minhas Razões de Crer, Lisboa: Âncora, 2000.

RATZINGER, J., Introdução ao Cristianismo, S. João do Estoril: Principia, 2005.

RATZINGER, J., Credo para Hoje, Braga: Editorial Franciscana, 2007.

RATZINGER, J. e D’ARCAIS, P. F., Existe Deus? Um Confronto sobre Verdade, Fé e Ateísmo, Lisboa: Pedra Angular, 2009.

1.4 Questões para debate

1. Será possível elaborar uma prova da existência de Deus? Até que ponto é racional a crença em Deus?

2. O sentido da existência humana deverá basear-se sempre numa motivação racional?

3. Qual é o valor daquilo que, na vida humana, não é racional à maneira da lógica ou da ciência?

 

 

English:

Education, Science and Religion (Gradiva, Lisboa, 2012)

Abstract:

This book is a reflection on the public perception of science, education and religion interfaces. Although with specific uses for trainees and trainers, our words are also intended for the ordinary citizen, since science and religion intersect with the lives and concerns of many people. Motivated this work the idea that many misconceptions about science and religion have affected the relationship between these areas. Science and religion, stand to gain from rapprochement and dialogue. In education, in particular, lacks tools to work these issues clearly and in plain language. This text is intended to spark reflection and debate on issues that arise at the boundary between faith and science and are the subject of heated debates in pre bases often not objective. Contributions are pointed out in the bases of objectivity and accuracy, both as regards science, or with regard to religion in general and Christianity in particular.

The book is organized in a set of nineteen questions to which it attempts to answer, or better, give clues at various levels: a first approach presents a text in language associated with a cartoon. In a second approach, the response develops a more sophisticated text, yet not exhaustive, including bibliography. Some relevant words are in bold and are in the final glossary. Also includes, for each section, a set of additional questions for debate. These questions can be used in varied group dynamics.

Many misconceptions boundary between science and religion and their education undermine a modern and contextualized science and can contribute to an “infantilized” religion. The religious side, much ignorance and inflexibility are fed images of God less good, incapable of being understood and accepted in our culture knowledge. On the side of science, on the other hand, there are also numerous fundamentalisms, as if science were to answer all questions of humanity. Aims to overcome these situations and attitudes that are not conducive to reflection and debate proposed here.

Alongside the scientific approach that interrogates and attempts to understand the cosmos, is always on the table the question of the meaning of life, for which religion trail paths. For believers and non-believers, issues and knowledge intersect in a mesh of science and religion. To the religious mind helping humanity learn to live, while the science is important to know to explain the phenomena of nature. In this sense, science and religion do not compete, they are complementary. Maybe they can, we believe, to cooperate in the larger goal of understanding the world and the meaning of human existence.

We are aware that various terms used in the texts, such as faith, church, religion, God, spirituality, etc., have different meanings, depending on the context. Not invalidating other perspectives, we assume our experiential and reflective experience of Catholic Christians. Matter some humility: science and religion, in many scenarios, respond, so lonely, they do not know. And the way to understand and give meaning to life is a work that everyone, everyone, yesterday and today and tomorrow, carve.

Index

  1. The reflections in this book gives us a rational way of being religious?
  2. The first man and the first woman were, in fact, Adam and Eve?
  3. The Big Bang theory is compatible with the Christian perspective on the creation of the universe, as is narrated in the Book of Genesis? And what existed before the Big Bang?
  4. More science means less religion?
  5. What is the role of ethical issues in the relationship between science and religion?
  6. In the Middle Ages religion hindered scientific progress?
  7. Galileo was pressed to deny the motion of the Earth that was for him scientific evidence?
  8. Quantum mechanics, with the indeterminacy associated with it, may have some connection with religion?
  9. The brain and emotions are studied scientific manner, with some objective conclusions. With the growing knowledge of the brain can we humans come to be absolutely predictable?
  10. The artificial intelligence threatens not only the man but religion?
  11. What are the implications of scientific developments in philosophy and religion? Religion has “fear” of science?
  12. Religion or science ” prohibit” the aliens existence?
  13. What does religion has to say about the problems of sustainability of the Earth?
  14. What contributions can we expect from “Neurotheology”?
  15. Science helps framing Fátima appearances?
  16. The alchemists sought the philosopher’s stone. This demand had any sense?
  17. It can be defend the theory of evolution and at the same time believing in God?
  18. Religion, with their positions on sexuality, is an obstacle to public health, particularly in respect to AIDS?
  19. Many non-believers argue, legitimately, their positions. What arguments / attitudes can have a believer towards non-believers?

glossary

Biographies

Alfredo Dinis (1952-2013) has his degree in Philosophy and Humanities at the Faculty of Philosophy of Braga of the Portuguese Catholic University and currently Director of this School. Degree in Theology from the Gregorian University in Rome and a master’s and a doctorate in History and Philosophy of Science from Cambridge University (England). Is President of the Portuguese Society for Cognitive Science and Director of People magazine and Symptoms. His area of teaching and research is the philosophy of science. Interest is also the dialogue between religion and science. He is co-editor of works Mind, Self, Consciousness and Cognition, both edited by the Publications of the Faculty of Philosophy of Braga.

John Paiva has is degree in Chemistry and a Masters in Teaching Physics and Chemistry in the University of Coimbra. PhD in Chemistry from the University of Aveiro. He is professor in the Faculty of Sciences of University of Porto. He works in the field of educational multimedia, especially in chemistry teaching and he is the author of “Fascination to be Teacher” (Text Editor) and “Taste of Time Is Passing” (Editorial AO). He is co-author of “Sexuality and Affect” (Plátano) and of two dozen textbooks in the teaching of physics, chemistry and multimedia (Texto Editores).