Deus e o amor
No jogo limitado das palavras, vendo bem, ironicamente, há uma coisa que Deus não supera: o Amor. Porquê? Porque Ele mesmo é o Amor.
No jogo limitado das palavras, vendo bem, ironicamente, há uma coisa que Deus não supera: o Amor. Porquê? Porque Ele mesmo é o Amor.
OÁSIS
O céu abriu-se
ainda antes
de eu saber
a forma do meu viver.
Ar fresco,
banhos de azul,
e outras coisas belas
que reaparecerão
depois da noite.
Toquei este oásis
quando me pus de lado,
me importei
que aquele outro
fosse feliz.
in Paiva, J. C. (2000), Este gesto de Ser (poesia), Edições Sagesse, Coimbra.
acessível aqui
Há inspirações não bíblicas que são quase indispensáveis para a construção humanista. Sempre me impressionou o que Homero escreveu a propósito do marinheiro náufrago, que deu à costa face num reinado que cultivava a hospitalidade. O Rei ordenou: tratem-lhe as feridas, vistam-no, dêem-lhe de beber e de comer e, no final, perguntem-lhe de onde vem… A hospitalidade, de facto, é inimiga do preconceito…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Rom 13, 8-10
Amarás ao próximo como a ti mesmo
Na carta de Paulo aos Romanos escutamos uma frase omnipresente nos convites emergentes de muitos livros sagrados: “Amarás o próximo como a ti mesmo”. Como apontador, este lema é simples e concretizável mas, ao mesmo tempo, reveste-se de muitas complexidades. O estilo cristão de tomar este livre mandamento tem critérios notáveis, explícitos e implícitos noutras passagens da escritura: o meu próximo é o que está a meu lado, precisando de mim; para amar o próximo como a mim mesmo, tenho de ‘gostar de mim’ o que, numa perspetiva de fé, implica reconhecer-me (muito) amado por Deus, que só sabe amar e criar…
Rezar é descansar em Deus, Aquele que é jugo suave e leve. Convém, quando fazemos esse ensaio de descanso, libertar aquilo que pesa, em nós, nos outros e no mundo. E se deus pesa, pondere-se se será Deus, pois Deus é apenas e só Amor. E o Amor é leve…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 2, 22-40
«Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para O apresentarem ao Senhor»
Dando cumprimento à Lei de Moisés, Maria e José levaram o Menino ao templo. O gesto central de Maria e de José, é o de oferecer o seu filho e, desta forma, estabelecer uma cumplicidade com a missão salvadora de Jesus e a sua doação a todos nós. Opõem-se ao gesto de oferecer, as atitudes de possuir, manipular, controlar, chantagear e construir expectativas formatadas. Quantas vezes, nas nossas relações (os pais em relação filhos mas não só), não teremos esta atitude de possuir, em vez de oferecer?…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Col 3, 12-17
«Revesti-vos da caridade»
Um bom propósito para este tempo natalício (e para todos os dias…) é revestirmo- nos de caridade. Se quisermos, vestirmo-nos de caridade. De manhã, quando acordamos, vestimo-nos, antes de sair de casa. A roupagem da existência, que nos aconchega é, por excelência, a roupa da própria caridade. O apóstolo Paulo ajuda-nos a escolher as cores e os feitios desta roupa de caridade: misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência. É esta a roupa que nos cai bem, é esta a roupa da harmonia, é esta a roupa que não nos deixa sós, nus e com frio, é esta a roupa que espelha a beleza prévia que sempre sopra…
Viajo
num comboio
pleno de gente.
Cada rosto
cada vida
cada olhar,
me comovem
profundamente.
A paisagem
move a gente
e a riqueza
que se sente.
Verto sal
de alegria,
plenitude,
de repente:
estes rostos
estas vidas
estes olhos
desta gente…
2011
Poetas, artistas plásticos, escritores e místicos tentarão, em última análise, dizer sobre o amor. A dificuldade é extrema e a dizibilidade do amor pode até ser impossível. Uma das aproximações mais simples e belas que conheço para o amor é esta: tu podes ser tu diante de mim! Esta abordagem, ironicamente, fica melhor vivida em gestos do que em palavras…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 15, 1-32
«Ele ficou ressentido e não queria entrar»
A parábola do filho pródigo é muito rica e permite múltiplas abordagens para nos fazer reflectir e crescer. Centremo-nos na pessoa do irmão do filho pródigo: a sua reacção é natural e todos nós temos um pouco da lógica deste irmão ressentido. Quantas vezes achamos injusto que aquela pessoa tão rude tivesse tantos benefícios… Quantas vezes pensamos ser injusto a saúde ou a vida fugir a “gente boa”, deixando outras pessoas “menos boas”, segundo os nossos critérios, sorrindo ao sol? Mas, mais subtil e auto-provocador, é o facto deste filho mais velho ser um ‘bem comportado’ (talvez “fosse à missa”, num linguajar contemporâneo). Ele ‘fazia bem’, mas ‘não fazia o Bem’, por isso, não queria entrar…