carências de abertura
A fé é um apoio vivente na convicção de que a carência, a dor, o desassossego, a inquietude, a incompletude e a morte, podem gerar abertura ao Espírito…
A fé é um apoio vivente na convicção de que a carência, a dor, o desassossego, a inquietude, a incompletude e a morte, podem gerar abertura ao Espírito…
Pedir a Deus não é relembrar Deus – que sabe o que preciso, eu e a humanidade. Pedir a Deus é expor-me à graça, a partir da minha abertura, do meu desejo e da minha carência…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 10, 38-42
«Marta, Marta, andas preocupada e aflita com tantas coisas, quando uma só é necessária»
É sobejamente conhecida esta passagem e muito inspiradora para nos auto-acalmarmos quando a azáfama nos toma como prisioneiros. Escrevi de propósito ‘auto’, pois dizer a alguém ‘olha que estás como Marta’ é capaz de não ajudar, como não ajuda a ninguém muito nervoso dizer ‘tem calma’… Mas não há dúvida que o atulhar de coisas para fazer, uma certa excessiva operacionalidade, nos inibe de muitas escutas e essencialidades. Convém, ao mesmo tempo, uma certa auto-condescendência para com as nossas ‘martisses’: as coisas têm de ser feitas e há fases de vida em que ser Maria é mesmo difícil…
L1: Gen 18, 1-10a; Sal 14 (15), 2-3a. 3cd-4ab. 4c-5
L2: Col 1, 24-28
Ev: Lc 10, 38-42
Talvez no Paraíso, apenas aí, se encontrem duas realidades humano-divinas, essenciais e paradoxais, que só em aperitivo ensaiamos, nesta vida, no seu conjunto: destino (amoroso) e liberdade…
Reconheço uma queda, senão mesmo um vício, que se manifesta por espreitar(forçar?) a coisa metafísica. Alguém me dizia: “é fascinante tatear porque os primeiros exemplares homo apareceram aqui (naquela zona de África)…”. Pensei para comigo: removemos uma simples palavra de quatro letras e a afirmação vira metafísica: “é fascinante tatear porque os primeiros exemplares homo apareceram”…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 10, 25-37
«quem é o meu próximo?»
A réplica do doutor da lei, quando Jesus invocou o antigo mandamento (“…e ao teu próximo como a ti mesmo”) é uma pergunta que nos pode server como revisão existencial continua: “Quem é o meu próximo?”. Na teoria, conhecemos já a resposta, sabiamente transmitida por Jesus na parábola do bom samaritano. Mas, na prática, quantas vezes nos esquecemos dos nossos próximos?… Em particular, como pessoa religiosa, pergunto-me: quantas vezes há envolvimento em heroicas missões apostólicas e esquecemos os que vivem em nossa casa, no nosso bairro ou no nosso trabalho, precisando de nós?…
NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.
Se me perguntassem de que fios é feita a minha fé, escolheria três: a graça (prévia), a necessidade e o desejo.
Na senda das sugestões de Thomas Halik em ‘Paciência com Deus’, diante da incompletude e de muitos esmagamentos que nos sufocam, temos quatro grandes filões de resposta: 1- desespero e depressão; 2- adaptacionismo interesseiro (em Roma sê romano…); 3- droga-te (com várias coisas como droga, dinheiro, religião e outras coisas em dose alienante); 4 – fé. Isto é, perseverar pacientemente na crença vivida de que há um sentido.
Conta-se a história de um monge budista jovem que, julgando-se já iluminado, parte para longe e afasta-se da zona da sua formação. Voltando anos depois, vai ao encontro do mestre. Face a ele, o jovem vê-se confrontado com uma pergunta simples: “em que posição deixaste as tuas sandálias?”. O jovem não se lembrava e o mestre disse então: “não alcançaste iluminação”. Faltava ao jovem o que nos falta a todos: atenção simples.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 10, 1-12
“Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”
A sugestão de envio, de missão, tem na expressão de leveza “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias“, bons significados. Sim, pode ser uma crítica ao excesso de prevenção e ao controlo mas é, sobretudo, um convite à confiança e à abertura face à surpresa. Viver cristãmente é este envio para abertura e para a leveza. Pelo contrário, ontem e hoje, enchemos a mochila da viagem de profilaxias. Que seguranças prescindíveis levo ainda na minha mochila? Tal carga me inibe de mais caminho e de mais leveza…
DOMINGO XIV DO TEMPO COMUM
L1: Is 66, 10-14c; Sal 65 (66), 1-3a. 4-5. 6-7a. 16 e 20
L2: Gal 6, 14-18
Ev: Lc 10, 1-12. 17-20 ou Lc 10, 1-9