O “ismo” que interessa…

Paiva, J. C. (2022). O “ismo” que interessa… Site Ponto SJ, 26-01-2022.

Disponível aqui

A palavra tem o seu quê de artefacto, de improviso, de tateamento comunicacional. É a menos má arma que temos contra a nossa indizibilidade. É tão forte e útil, quanto precária e frágil. É, sobretudo, dinâmica, a palavra. Sabemos todos, por experiência própria, que a palavra é também ambígua e não depende só de si mesma. Entre outras coisas, a mesma palavra, se preciso for, tanto mata como liberta… É através da palavra que nos construímos e convergimos, mas, também por ela, nos desencontramos.

O sufixo “ismo” é relativamente recente no nosso linguajar. Incluído há alguns poucos séculos na nossa família linguística, o seu uso tem vindo a intensificar-se e apresenta-se hoje nos mais versáteis cenários semânticos. O “ismo” não tem carga fixa assumindo valores diferentes conforme o contexto. Gostava de me focar no lado mais ‘tóxico’, do sufixo “ismo”. Como sou químico, vou tomar a liberdade de convocar o enquadramento de “dose excessiva”, para querer aludir a certa intensidade, certo enfoque, certo exagero, também… Um exemplo óbvio é a palavra alcoolismo. É um “ismo” que diz respeito a uma dose intensa (porventura letal…) de algo que, tomado na dose certa, é pura e simplesmente bom, até muito bom. O álcool é fonte de sabor, de alegria, de vida e de sinalidade. Tomado a mais, deixa de ser tónico, passa a ser tóxico … e inebria. Nos parágrafos abaixo, situo-me como Cristão Católico Apostólico Romano face a muitos potencias “ismos” que intoxicam:

Importa conservar, principalmente na vida e no coração, uma herança testemunhal milenar que comunitariamente se tece para oferecer sentidos de esperança. Mas conservar, em Igreja, é sempre um gesto aberto e arriscado, atento aos sinais do mundo, dinâmico no mandato evangélico do sempre novo.

Assumo o caráter institucional da minha fé. Reconheço que organização e estrutura ajudaram na história e ajudam no tempo presente, qual copo que vale a pena ter para beber vinho. Mas um copo (instituição) não tem que ter peneiras nem obsessão de ser vinho (Espírito). O copo serve para beber vinho e copos por si mesmos são vidros infecundos, que até fazem feridas…

A fé encarnada é, em si mesma, continuista. Jesus de Nazaré nasce na história e funda e refunda a partir do que existe. É um Judeu que entra na fé e na vida do seu tempo e liberta na continuidade, sem romper com a história. É alguém que, mais do que ter amado e criado, ama e cria, ou, melhor, vai amando e criando… na realidade continuada.

Sem a tradição, esse gesto de transmitir, de dizer o tesouro que se traz no barro frágil, nenhum de nós teria condição de receber e continuar o dom. A tradição contempla igualmente a dimensão comunitária da fé, porque faz por dizer, a partir de Cristo, através dos tempos, o(s) “nós” da Fé. Mas tradição não tem que casar com resistência, com estaticismo e com rigidez. Pelo contrário, também porque a Boa Nova reclama, a tradição só sobrevive se se souber (re)dizer.

A Igreja tem os seus dogmas e eu viajo com eles, também. Os dogmas são para nós apontamentos fortes do que se entende ser a verdade e, é bom registar, têm naturezas e valores diferentes uns dos outros. Gosto de associar à palavra dogma uma outra, que nada tem a ver, no sentido etimológico: boia. E há boias que quero assumir como verdades que voluntariamente não desejo discutir, mas antes acolher e viver. Preciso delas, a partir de dentro de mim mesmo, para me não afundar no mar gozoso, mas tumultuoso da vida. Uma delas, a boia maior, da qual não me quero apartar, é esta mesma: a certeza que Deus é amor. As outras boia(zitas) ancoram nesta maior e poderão ser mais dinâmicas do que as fazemos… As boias de sinalização no mar oscilam com as correntes. Embora ancoradas, não são estátuas.

Foi e é importante uma certa doutrina, fonte de ensinamento e sabedoria, que nos pode iluminar no caminho e ser em si mesma testemunha de abertura e dádiva. Mas a doutrina não tem que ser doutrinadora… Pelo contrário, se é sabedoria a empreender pedagogicamente (a propor e não a impor, portanto), terá de ser aberta e recíproca. A doutrina cristã de século XXI, inspirada num tal de Jesus de Nazaré, deve ser principalmente de escuta. Propõe-se, mais do que com palavras, com vida(s), mas recebe e ilumina-se na diferença. É, em rigor, por ser cristã, uma doutrina aprendente.

Na Igreja, alimento-me de sacramentos, sinais visíveis que me ajudam nesta ponte tensional inacabada, entre o visível e o invisível, o ausente e o presente, o inatingível e o tocável. Nestes sinais, partilhados, abertos, esbanjados e oferecidos, realiza-se, no lastro da nossa fé, o que se representa. Mas nenhum sacramento pode ser vivido sem a consciência da sua paradoxal mas real infidelidade. O sacramento é, em si mesmo, também, insuficiente. Como a fé em Deus, o sacramento quer precisar da liberdade, da inteireza e da fé de quem participa. Sem adesão coerente e profundamente interior, o sacramento pode ser superficializado… e infecundo.

Portanto, assumidamente, sou conservador, institucional, continuador, tradicional, dogmático, doutrinal e sacramental. A vida espiritual não exige o ser religioso. Estes apontamentos comunitários de pertença vão-me ajudando a ser o que posso ser, salvando-me de mim mesmo. Mas… recuso e até gasto alguma energia de luta contra os “ismos” caricaturais de fundamentalismo destas procuras. Afasto-me do conservadorismo, do institucionalismo, do continuismo, do tradicionalismo, do dogmatismo, do doutrinismo e do sacramentalismo.  São estas doses excessivas, brotando de dentro e para dentro e para fora da Igreja Católica, que, tantas vezes, desperdiçam o tónus fundamental. Outros “ismos” de certo sentido oposto, como os progressismos ou os descontinuismos (revolucionários), também me repelem. Mas fica para outra reflexão tal desenvolvimento.

O “ismo” que vale a pena é mesmo o do Cristianismo… Admito que para o sentido da minha vida e do mundo, a identificação com Cristo é da ordem do ‘quanto mais melhor’. Deste “ismo”, sim, quero voluntariamente embebedar-me. Há uma ironia, nos próprios Evangelhos, que me sustenta: Jesus de Nazaré, em muitos dos seus gestos, palavras e sinais, opõe-se, precisamente, a todos os fundamentalismos, essas sombras que não deixam eclodir a proposta do radical amor. O cristianismo é um “ismo” que precisa sempre, para evitar os “ismos” que não contém, de três pilares fundamentais: a abertura, a novidade e o dinamismo. É também por isto que desejo celebrar, quotidianamente, com tanta alegria e vontade quanto (auto)desperdício, o “ismo” que me dá Ser: por Cristo, com Cristo, em Cristo…

JP in Sem categoria 28 Janeiro, 2022

restituir a liberdade aos oprimidos

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 1, 1-4: 4, 14-21
«restituir a liberdade aos oprimidos»

Na sinagoga, local religioso da Sua própria cultura, Jesus proclama ao que vem, fazendo pontes (páscoas…) antecipadas entre a tradição e a Sua própria novidade. Podemos centrar-nos no apelo à liberdade, aqui invocada como uma restituição, apelando a certa potencialidade, liberdade e bondade originais que nos constituem. Jesus e a(s) sua(s) igrejas, entretanto tecidas no tempo e no espaço, nem sempre sublinharam devidamente esta essência de liberdade. Mas certa opressão existencial, que pessoal e coletivamente carregamos, tem uma saída em Cristo. A(s) igreja(s), ou apontam esta liberdade, ou não serão de Cristo…

NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado anteriormente, neste blog.

DOMINGO III DO TEMPO COMUM


L1: Ne 8, 2-4a. 5-6. 8-10; Sal 18 B (19), 8. 9. 10. 15
L2: 1 Cor 12, 12-30 ou 1 Cor 12, 12-14. 27
Ev: Lc 1, 1-4: 4, 14-21

JP in Sem categoria 22 Janeiro, 2022

Deus tece

Deus não domina, tece…com fios que transportam a nossa própria liberdade.

JP in Sem categoria 20 Janeiro, 2022

não têm vinho…

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jo 2, 1-11 

«Não têm vinho»

O relato do Evangelho que hoje nos inspira diz respeito às Bodas de Caná, onde se saboreia o primeiro carente mas depois abundante néctar do vinho. Podemos fazer uma pergunta de paragem: “que vinho nos falta?” (na família, no trabalho, na rua…). Valorizar esse desejo e tomar nota que não é tendo tudo que se está bem. Não é necessariamente cheio que se está pleno. Há que viver o processo de transformação: assim como o da água em vinho, o da rotina em sabor, o da carência em saciedade, o da morte em vida…

NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.

DOMINGO II DO TEMPO COMUM


L1: Is 62, 1-5; Sal 95 (96), 1-2a. 2b-3. 7-8a. 9-10ac
L2: 1 Cor 12, 4-11
Ev: Jo 2, 1-11

JP in Sem categoria 16 Janeiro, 2022

Também Jesus foi baptizado

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Lc 3, 15-16

Também Jesus foi baptizado

Este gesto de Jesus ‘se colocar na fila’ para o batismo (em teoria, prescindível para o Messias…) valoriza-nos a humildade e a procura de realização no ‘ordinário’ de cada dia. O batismo de Jesus é o mergulho no mundo como ele é, em cada um de nós e nas nossas vidas. A forte simbologia da água marca o sinal positivo do batismo como uma imersão voluntária e comunitária no risco da fé, no usufruto do acolhimento, no amparo da água que limpa, purifica e refresca…

NOTA: Este artigo é repetido/adaptado de um outro já publicado neste blog

DOMINGO do Batismo do Senhor

FESTA
Branco – Ofício da festa. Te Deum.
+ Missa própria, Glória, Credo, pf. próprio.

L1: Is 42, 1-4. 6-7; Sal 28 (29), 1-2. 3ac-4. 3b e 9b-10
L2: At 10, 34-38
Ev: Lc 3, 15-16. 21-22

JP in Sem categoria 8 Janeiro, 2022

Desejo(zinhos) de Ano Novo

Paiva, J. C. (2022). Desejo(zinhos) de Ano Novo. Site Ponto SJ, 01-01-2022.

Disponível aqui

Os típicos leitores destas palavras têm, como eu, pão na mesa, banho quente, médico a quem recorrer e tanto mais. Quem não tem estes mínimos, só pode desejar tê-los. Assim, este artigo pode fazer sentido apenas para os primeiros.

Na entrada do novo ano fazem-se balanços e balancetes, memórias e celebrações. Reinventa-se a esperança e tecem-se propósitos. Vive-se a transição do ano como se deveria viver: em festa.

O ano que termina de 2021 foi duro, talvez até mais duro que 2020. Porque o segundo murro no estômago doí mais do que o primeiro. Uma primeira pandemia tem, na vivência e na leitura, a atenuante do inesperado, a ausência de livro de instruções. As vagas seguintes são extrapoláveis dos gráficos científicos, dos ciclos virais e mutações, mas moem e levam ao grito agora continuado do “nunca mais acaba”. Este ano teve alguns fôlegos, de esperança e de liberdade, como se fossem o queijo e o fiambre de uma sanduiche, do duro pão ressequido de janeiro e dezembro, que o diabo amassou.

Para alguns foram tempos de hospital e até de morte. Para todos foi privação, cansaço, confinamento, menos toque, menos rua, menos prosperidade, mais e diferente trabalho. Também menos frenesim, menos gestos mecânicos, mais tempo em casa com outras pessoas debaixo do mesmo teto. Foram coisas intensas que a vida teima em nos ensinar: temos muito realidade a circundar-nos e tão pouco na nossa mão. Caminhamos com pés de barro numa estrada que nos é oferecida e só a fragilidade comum nos une, de facto. A demanda maior chama-se paciência.

Compreende-se que se peçam coisas novas ao novo ano (escutará ele tais pedidos?): saúde, fim de pandemia, empregos, novos amores e reconciliações. Mas, deste lado privilegiado do mundo, desejo desafiar-me a um só pedido: que eu saiba receber a novidade do Novo Ano e que me encha de alegria viver esse pedido. Se um dia eu soubesse pedir apenas esse sonho maior e sem forma, de me bastar o abraço garantido que me habita…

Os propósitos são típicos desta transição do calendário. Propormo-nos a algo é desde logo uma porta de entrada na mudança. Mas, reconheçamos, tantos propósitos ficam precisamente à porta, aquém, por serem ora ingénuos, ora megalómanos, ora inalcançáveis. Faltam muitas vezes os meios realistas para os alavancar, avaliar e neles progredir para crescer. Um exemplo de propósito comum mas vago seria “tratar melhor do meu corpo”. Melhor será “fazer mais exercício”, mas, melhor ainda “correr dia-sim-dia-não quinze minutos por dia”. Da mesma forma, “escutar mais os outros” é largo de mais e convém afunilar para “telefonar a uma amigo ou familiar uma vez por semana”. Outro exemplo ainda: “não dizer sempre que sim”; terá sentido para algumas personalidades mas poderá ganhar em ser concretizado, tirando da cartola, face a qualquer solicitação, em vez de um sim automático, a mágica expressão “dá-me um tempo, vou pensar, discernir se é oportuno e responder em conformidade” (e abusar desta expressão…). Um dos propósitos mais ouvidos na catolicidade é o propósito de “rezar mais”. Poderá ser mais realista, por exemplo, “parar mais” ou, melhor ainda, “reservar solenemente dez minutos por dia, na hora, na forma e no local mais convenientes, para um espaço de silêncio”.

Talvez baste estar no aqui e no agora, atento ao que se passa, colher cada cheiro, fixar as cores da natureza, ver o rosto de quem se cruza comigo e sentir o renascimento de tantos gestos. Às vezes, eu bem sei, não há ânimo que aguente, não há inspiração no olhar, nem força na algibeira, nem esperança no caminhar. Às vezes morremos. Pois aí está o grande pedido, aí está o cerne do sonho grande, a vacina de que precisamos: acreditar que a morte – as pequenas mortes de tudo e de todos – não são a última palavra. Alguns chamam a isto Ressurreição… e saibamos nós viver para que algo ressuscite em nós: eis o mais cristão dos pedidos.

2022 será também um ano decisivo para a Igreja sinodal. Escuta-se e caminha-se a horizontalidade de uma casa comum. Um sínodo sobre o sínodo é uma redundância deliberada que nos leva a perceber que só o diálogo e o caminhar juntos nos dão sentido, que só se é Igreja em sínodo permanente, hoje e amanhã. Dar vez e voz a cada um foi o que um tal nazareno veio propor ao mundo, algo que o Concílio Vaticano II sublinhou e que será sempre o devir da Igreja que somos.

O que eu desejava desejar para 2022 era que este texto, um dia, fizesse sentido a todos porque todos tinham pão na mesa, amassado também nas minhas mãos.

Bom mesmo seria assumir este ano de 2022 como francamente Novo. E essa consideração de novidade está nas nossas mãos, para além de qualquer teste covid. Que nos bastasse a surpresa confiada de ver novas todas as coisas. Talvez este desejo maior possa ir diminuindo o tamanho do mero desejo(zinho). Talvez isto nos permita ir sendo a Paz a cada dia.

JP in Sem categoria 4 Janeiro, 2022

regressaram à sua terra por outro caminho

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 2, 1-12
«regressaram à sua terra por outro caminho»

Em celebração de “dia de Reis”, já depois do Natal, há vestígios ainda de “conversão”, no melhor sentido dos termos, isto é, como mudança de vida. O simbolismo dos Reis Magos terem “regressado por outro caminho” é forte: significa que aquele encontro especial (com um sentido, com O sentido…) os fez mudar trajetórias. Talvez uma das maiores riquezas da ritualização espiritual seja o radical e sistemático convite à novidade, ao confronto, à mudança de trajetória, ao “regresso por outro caminho”. Na imagem e no âmago da Igreja, nem sempre vislumbramos este espírito de mudança… Era bom cultivarmos interiormente a disponibilidade de nos tocarmos, de nos co-movermos, quando visitamos alguém, quando ensaiamos novos cenários, quando nos entregamos a novos encontros. E, diante dessas novidades, das novidades da vida, alvitrar outros regressos…

NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.

JP in Sem categoria 2 Janeiro, 2022

aniversário…

Vale a pena celebrar os aniversários, embora eu não seja forte na estética desses dias especiais. Melhor quando se faz a festa do agradecimento da vida, recebida e oferecida tal e qual, com tranças de fragilidade e virtude, esperança e desânimo, labor e descanso e tudo mais que tece este valer a pena viver.

JP in Sem categoria 16 Novembro, 2021

Sacerdócio feminino e paciência eclesial

Paiva, J. C. (2021). Sacerdócio feminino e paciência eclesial. Site Ponto SJ, 17-10-2021.

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Não conseguiria abordar o tema do acesso feminino ao sacerdócio católico romano como assunto único. É tudo muito complexo, sistémico… e ultrapassa-me. Já julgo conseguir explicitar alguns pontos de vista se, a par do tema (e sem tabus) associar o estar em Igreja ou, melhor escrevendo, ser em Igreja. Vamos ao que interessa…

1 Não compreendo – e entendo até não conseguir adivinhar compreender no futuro – este fechamento

Os principais argumentos para eu não conseguir encontrar qualquer obstáculo plausível ao sacerdócio feminino residem em certa antropologia teológica. Neste jogo tensional entre a humanidade e Deus, só consigo vislumbrar uma redenção, uma revelação e uma ressurreição genuinamente universais. Deus é Pai por falta de palavras e conceitos melhores. Mas sabemos que é Mãe, também, e, em última análise, o vertimento amoroso divino não poderia ter peneiras de género. É claro que a realidade dos tempos em trânsito, a começar na força e superioridade anatómicas dos primeiros hominídeos machos, foi impondo uma assimetria, que ainda hoje combatemos. Mas é nos Evangelhos, sobretudo na forma como Jesus de Nazaré se abeira das mulheres (naquele tempo e naquele espaço, particularmente despromovidas) que baseio esta perceção de horizontalidade homem-mulher na proposta cristã, em todas as suas dimensões e, por isso mesmo, também na possibilidade de elas poderem animar e presidir à celebração da fé na eucaristia, bem como administrarem outros sacramentos e terem qualquer função, também estrutural e hierárquica, na Igreja Católica Romana.

Não é este o lugar para o escrutínio sistemático do ponto a que chegamos. Mas a teia argumentatória que abafa anda pelo facto de Jesus só ter tido discípulos mais chegados homens (o que é objetivamente discutível mas, mais relevante ainda, qualquer extrapolação histórica desta índole é ingénua). Ouve e lê-se, também, que para ‘cristificar’ (na eucaristia, por exemplo) teria que se ser homem, como Cristo… Mas um cristianismo profundo, me parece, reconhece o género masculino de Jesus como um “acidente antropológico”. Parece-me que há ainda um baseamento do sacerdócio excessivamente agregado ao sacerdócio milenar pré-cristão, o que não ajuda à emancipação que os nossos tempos demandam.

Há algumas pessoas que me acompanham, pelo menos em parte, no raciocínio interior, invocando, porém, que certa tradição não favorece caminhos de abertura. Eu julgo compreender o valor da tradição, a marca de novidade na continuidade com que se tece a Igreja e a própria proposta cristã. Mas tradição e fechamento, no meu entender, jogam mal. Se a tradição for para fechar e defender, superando a razão e os sinais dos tempos, não consigo acolher.

Tropeço também em argumentos de unidade católica, evidenciando a diferença entre as várias culturas e localidades onde a Igreja está implementada e onde o papel da mulher tem as mais variadas matizes. Compreendo essa diversidade, mas parece-me insuficiente para fechar o diálogo. Os embalos do Concílio Vaticano II (também ele, no meu entender, gérmen não explicito para outro papel feminino na Igreja…) fomentariam uma diversidade na unidade, capaz de dar aos Bispos, em leituras locais contextualizadas, ensaios de maior pendor feminino no seio da Igreja.

É bom clarificar que o facto de termos mulheres a poder presidir à eucaristia, por exemplo, traria mais oportunidades de muitos fiéis (e não é só na Amazónia…) terem acesso a esse sacramento tão fecundo de nos alimentarmos na Fé, para alimentarmos o mundo. Mas, se este artigo fosse um teorema, esta ampliação da oportunidade pastoral e sacramental seria só um corolário, em certo sentido, contingente, temporal e circunstancial. O(s) motivo(s) maior(s) é muito mais cristãmente essencial e amplo…

2- Assim como na ciência e religião…

O caminho que fiz até aqui, a este propósito, tem muito a ver com o diálogo ciência e religião. Parece distante, mas explico: sou um ignorante vindo do mundo das ciências. Talvez por ser químico (que é a ciência das misturas e é epistemologicamente uma disciplina que é muito quase-utilitarista de outras áreas do saber), li algumas coisas e falei com muita gente, principalmente do lado da teologia e da filosofia, para construir um edifício que me fosse coerente no que diz respeito à compatibilidade entre ciência e religião. Embora continuando (mais) ignorante, este exercício corrigiu-me em relação a alguns aspetos sobre a natureza da própria ciência, mas, mais importante ainda, devolveu-me como num bumerangue, resignificações religiosas. Baseei-me em gente ora mais, ora menos suspeita (Chardin, Rahner, Kung, Ratzinguer, Queiruga, Buber, Polkinghorne, Newman, Barbour, Vallina, etc). Nenhuma destas fontes me inspirou diretamente para uma fundamentação favorável ao sacerdócio feminino… mas (aqui está a nuance…) as bases que fui edificando para o exercício de tal compatibilidade entre ciência e religião, e que incluem a não ultrapassagem da razão pela fé, a não literalidade bíblica, o entendimento das Escrituras como livros de revelação e não de explicações, bem como a abertura do espírito e da mente para ler as evidências, entre outras, cairiam como castelos de cartas se fossem tecidas com argumentações congéneres, como as que escuto e leio para fundamentar o fechamento ao acesso sacerdotal das mulheres. A abertura que precisei aqui (ciência e religião) seria uma absoluto buraco negro, se eu usasse pressupostos da ordem dos que se me têm cruzado no contexto da problemática associada ao protagonismo feminino na Igreja Católica Romana… Dito ainda de outra forma: quando me é apresentado um argumento favorável ao fechamento das mulheres ao sacerdócio eu tendo quase sempre a poder elaborar que, se fosse ter tal tipo de condição em conta, no que diz respeito ao diálogo ciência-religião, rigidificaria a argumentação e acabaria num reduto onde não desejo estar: ciência e religião seriam incompatíveis.

3- Mas porque permaneces?

É sabido que, neste momento, na Igreja Católica Romana, o tema do acesso ao sacerdócio por mulheres é um não-tema, assumidamente encerrado para discussão. Na senda de João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco (neste último caso, intuo, como preço de certa sinodalidade e não personalização do poder como serviço), o assunto está fechado… e nem sequer fechado para balanço… Tenho alguma repugnância intelectual pelos fechamentos intrínsecos. O terreno do exercício científico, que tem, no meu entender, sementes de judaico-cristianismo evidentes, habituou-me à abertura como forma de estar, ao estímulo crítico e à positiva provisoriedade das verdades científicas. Admito certos dogmas (certas boias) no que à fé diz respeito. “Deus é amor”, por exemplo, não é verdade que pretenda relativizar e destilar, mas tão só, em fé, acolher e viver. Só que “as mulheres não podem aceder ao sacerdócio” é de uma outra ordem e não merece, definitivamente, o selo de dogma inegociável, nem o estaticismo que a Igreja hierárquica lhe está a conferir… Em síntese, nesta reflexão, são duas, as setas críticas: a não abertura ao sacerdócio feminino e a opção de não abrir o diálogo interno sobre essa mesma circunstância.

Há pouco tempo, fui perguntado num grupo alargado de jovens sobre este assunto. Depois de exprimir o meu ponto de vista, alguém, percebendo o meu sentido crítico e até algum incómodo, perguntou-me porque permanecia na Igreja Católica, discordando deste (como de outros, acrescento eu) dinamismos ou bloqueios semelhantes. A crença vivida na comunhão, mais do que no poder e a prevalência da paz sobre a razão, como ouvi recentemente serem propósitos de alguém que celebrava a vida, inspiram-me à permanência…

Convém também clarificar que esta contenda tem um lado não essencial. Isto é, sem escamotear que os estado das coisas (no duplo sentido de fechamento antropológico e de fechamento dialogante) projeta, no meu entender, carências e incompletudes da Igreja, não é uma crucialidade do meu ser Cristão. Mais ainda, seria ingénuo pensar que, embora desejável, no que a mim diz respeito, mais abertura neste âmbito, resolveria as questões mais estruturais do cristianismo. Julgo que se eu fosse mulher, nada mudaria a respeito da colocação que acabo de expressar. Até porque tudo isto não se coloca a nível do ‘direito ao sacerdócio’, que é em si próprio uma antítese e uma enviesada porta de entrada. O que está em causa – que eu lamento como impossibilidade – seria um encontro para um serviço (nunca um direito). E todos os serviços se propõe e não impõe e muitas vezes é preciso esperar para que sejam acolhidos como uma possibilidade real. A essa espera me sujeito…

4- É sempre e só um ponto de vista, o (curto) meu…

Fica para outra abordagem um tema congénere no espaço público, o do acesso ao sacerdócio de homens casados. Aqui o tema é menos complexo e com facilidade dispensa a reflexão antropológica e teológica, conseguindo-se certa redução a um contexto de problema meramente disciplinar. Intuo que poderei morrer antes ainda da Igreja Católica Romana admitir no seu seio o sacerdócio de homens casados (não religiosos, o que é e será sempre um caso à parte). Mas não mulheres, muito menos mulheres casadas. Talvez não veja, pelo andar da carruagem, tal cenário vivo e implementado nestes anos mais em que poderei ter oportunidade de existir no planeta Terra. Admito e espero, contudo, ao menos, ver em crescendo a relevância da mulher na Igreja, incluindo, de forma óbvia e objetiva, nos seus centros decisórios de poder (de serviço pelo poder, melhor dizendo).

Importa-me ir refletindo o meu posicionamento em todo este dinamismo e os benefícios e prejuízos que o status quo sobre a matéria, neste momento específico da história da Igreja e do mundo, assinalam. Dou graças a Deus por poder expressar (-me), incluindo num meio de comunicação da Igreja católica (o Ponto SJ), de forma aberta e declarada. O que aqui escrevo, convicto mas ao mesmo tempo inseguro, é um imperativo de honestidade intelectual, que, nas minhas limitações, entendo radicado no Evangelho e nas portas universais que a Boa-Nova-de-todos-e-para-todos encerra. Mas é só um ponto de vista, é só a vista a partir de um certo ponto, o meu… Importa-me mais ‘o nosso’, que nem a força nem o poder imporão. Então faz-se caminho e eu aceito esse (lento) caminhar… A vida de fé é, em si mesma, uma espera paciente por um horizonte a que se aspira, que já se vislumbra, mas que ainda não se pode abarcar na totalidade. Se ser Igreja for um caminho comunitário de fé, como julgo ser, pede-me também esta paciência eclesial. No tempo que vivemos, posso até não me calar, e permaneço livre, alegre e pacientemente neste corpo de que quero tomar parte…

JP in Sem categoria 18 Outubro, 2021

AGUENTAR: um verbo tramado em Igreja…

Paiva, J. C. (2021). AGUENTAR: um verbo tramado em Igreja… Site Ponto SJ, 24-09-2021.

Disponível aqui

Tenho simpatia pelo verbo aguentar. A vida, a nossa vida e a vida de cada um de nós, é feita, não só mas também, de muitos “aguentamentos”. Aguentar é permanecer, é ficar quando o vento sopra. É tolerar a tempestade e, por ligação à rocha, manter-se em pé. Jesus de Nazaré, aguentou, e aguentou até à cruz.

MAS (trata-se de um grande mas…) estamos sujeitos a abusar deste verbo. Quando olho a Igreja que somos, neste tempo e neste espaço, pergunto-me se não estamos excessivamente focados (ou tapados?) no verbo aguentar. Este aguentar (para não perder, para não mexer, para deixar estar… a ver se aguenta…), pode implicar derrocadas, entre hoje e, sobretudo, amanhã. Perdas não só de abrigo, como de fundação. Existe uma expressão popular que aqui e ali assenta como uma luva nas atitudes que tendemos a ter face a certos desafios eclesiais: “atirar com a barriga para a frente”, esse deixar correr que adia a decisão corajosa.

A Igreja encontra-se numa encruzilhada muito original, que a crise pandémica agudizou ou exibiu em maior extensão e profundidade. Há neblina sobre o próprio devir eclesial. Apesar dos esforços evidentes e fecundos do Papa Francisco, colocando em andamento as inspirações do concilio Vaticano II, há resistências, principalmente internas, que minam a ação. Mesmo as pessoas que entendem estarmos num tempo novo e face a novos desafios, carregam a pressão dessa reatividade resistente, e impera o receio de arriscar e a falta de coragem, preferindo-se…aguentar. Há dois vírus que a Igreja carrega ao longo do tempo, que serviram para aguentar, mas que, tão feliz quando dramaticamente, se estão a tornar insuportáveis: o medo e o controlo.

Alinho abaixo alguns (apenas alguns) aspetos da nossa Igreja que, em muitos cenários e horizontes, me parecem estar a ser encarados com demasiado ‘aguentamento’. O elenco poderia ser mais vasto e é aqui apresentado telegraficamente, sendo que seria merecido, em momento ulterior, aprofundar cada um dos itens:

1.Uma catequese com modelos pedagógicos falidos
Os modelos catequéticos “curriculares”, mimetizando a escolaridade, com a tríade batismo/primeira(ou última?) comunhão/crisma terão mesmo de ser questionados. A aproximação mecânica das famílias a este modelo tem gerado infecundidades gritantes. Fazer o mesmo porque sempre se fez assim é radicalmente insuficiente.

2. Uma “concorrência” feroz para proporcionar encontros com odor de Evangelho, principalmente aos mais novos
Como uma quase fatalidade, é hoje dramaticamente desafiante oferecer alternativas a tantas possibilidades de encontros que se geram fora do espaço tradicional da Igreja. É certo que o lugar da Igreja é o mundo, mas as ofertas que este tempo coloca no horizonte, incluindo nas redes sociais, torna tudo muito mais complexo.

3. Um dinamismo celebrativo à espera de mais rasgo, beleza, silêncio e simplicidade
Há um espaço tensional nas celebrações católicas romanas. Uma rica tradição, que não se pode perder, é muitas vezes, vivida com defensividade, como se manter tudo na mesma fosse sinal de conservar. Há que reconciliar esse embalo milenar positivo com a renovação necessária, também na festa da missa. A simplificação litúrgica, em particular, potenciada com dinamismos mais horizontais e momentos de silêncio, menos centrados em quem preside, são caminhos menos percorridos.

4. Um clericalismo teimoso, de muitos clérigos e leigos
São muito persistentes os sinais de clericalismo, na consciência interna e na ação eclesial de muitos de nós. Um dos aspetos gritantes é a forma típica como se responde à falta de padres ou à situação (frequente, como sabemos) de padres desajustados a certa realidade paroquial/pastoral. O ‘tique’ mais típico é “partir padres ao meio”. Muitas vezes, nas (não) decisões, pondera-se mais o padre em si (onde vamos colocar este sacerdote?) do que a comunidade no seu todo. São radicalmente tímidas as iniciativas de promover a liderança laical de comunidades, com novos enquadramentos de garantia de unidade aos Bispos e ao Papa.

5. Uma sinodalidade duvidosa, onde a escuta se arrisca a ser um procedimento estéril
Não há forma de se ser Igreja, hoje, senão em chave sinodal. Promover uma escuta efetiva de todos e para todos, que tenha depois contra-feedback, reflexão desapegada, “amassamento” dos contributos no Espírito, caminhos e ação. De Roma, nos nossos tempos, aparecem, felizmente, gritos fortes de desejo sinodal. Alguns, mais longe dali, resistem a dar valor a este (único) estilo de ser Igreja.

6. Falta de iniciativas e experiências originais
Seria bom que os bispos usassem da liberdade de ensaiar e as comunidades, por sua vez, tivessem liberdade para essas mesmas iniciativas. Seriam processos, janelas, pequenas respostas, insights vertidos no tempo e no espaço… que depois, claro está, teriam a respetiva avaliação e eventual reformulação/replicação.

Disse no início desta reflexão que Jesus de Nazaré, aguentou, e aguentou até à cruz. No alinhamento do que as palavras foram tecendo, prefiro terminar assim: Jesus de Nazaré, que foi até à cruz, amou e ama, abriu e abre janelas de luz e de esperança. Mas encarnou para amar, não para aguentar. Aguentar é um meio (não o fim) do sonho de Deus maior: a liberdade do próprio amor. Para isto existimos. A Igreja existe para proporcionar este encontro de todos com a livre liberdade do amor. Para construir essa Igreja não podemos deixar de olhar com esperança a abundância que semeia em todo o lugar. Mas cabe-nos um trabalho e fazer render talentos de mudança criativa. Aguentar, definitivamente, é excessivamente defensivo e insuficiente!

JP in Sem categoria 4 Outubro, 2021