cosmologia aristotélica…

A ideia de que o universo era um todo ordenado e, por isso, racionalmente explicável, levou Aristóteles a elaborar uma complexa, mas coerente cosmologia. Segundo ela, os corpos celestes eram incorruptíveis, imutáveis e perfeitamente esféricos. Só no espaço entre a Lua e Terra havia mudança e corrupção. As estrelas estavam fixas numa esfera cristalina, por detrás da qual se situava o primeiro motor ou motor imóvel que explicava o movimento, não só da esfera das estrelas fixas, mas também das esferas nas quais estavam incrustados os planetas, a Lua e o Sol. Havia nesta concepção muita observação empírica conduzida por astrónomos capazes de calcular os equinócios e os solstícios, os eclipses do Sol e da Lua, etc. Havia também muita especulação filosófica. Os cristãos medievais adicionaram a esta cosmologia grega a teologia cristã, colocando o empíreo, ou seja, a habitação dos anjos e dos santos, por detrás da esfera aristotélica das estrelas fixas e imaginando que o inferno estava no interior da Terra. Uma tal cosmologia cristã parecia também estar em pleno acordo com a narração bíblica. Esta perspectiva integradora da filosofia e do conhecimento empírico era natural, pois existia também em outras civilizações. A cosmologia aristotélica, com muitos outros conhecimentos, científicos e não só, foi coerente, mas já não é. Nenhum problema com o dinamismo epistemológico mas a teologia tem de se saber redizer num mundo de conhecimento em evolução…

JP in Sem categoria 10 Junho, 2026

ovelha perdida

Inspira-me sempre a “ovelha perdida” do Evangelho. Ali se rasga Deus como arriscador … Deixa-nos e abandona-nos para arriscar a radical misericórdia personalizada. Desta liberdade nos alimentamos.

JP in Sem categoria 8 Junho, 2026

“gente de bem”…

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 9, 9-13

«Por que motivo é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?»

Convém sempre relembrar e sublinhar esta passagem do Evangelho, em que se relata o encontro de Jesus com Mateus, cobrador de impostos. O facto de Jesus se dar, se aproximar, acolher e aprender com ‘gente de má vida’ (leia-se, com todos e com cada um de nós) pode ecoar naqueles que confundem a proposta cristã com qualquer vestígio de puritanismo seletivo. A expressão algo em voga de ‘gente de bem’, encerra, em si mesma, o avesso deste trecho evangélico. Jesus vem para todos mas a originalidade da sua revelação é a universalidade do acolhimento, a preferência pelas margens, pelas periferias sociais, pelos excluídos. É este também o devir da Igreja que, ao mesmo tempo, muito ganha se for somado a certa humildade-verdade de nos reconhecermos todos, também nós, seres carentes e de periferia… Estamos no âmago de uma mensagem, no mínimo, não-populista…

DOMINGO X DO TEMPO COMUM

L 1 Os 6, 3b-6; Sl 49 (50), 1 e 8. 12-13. 14-15
L 2 Rm 4, 18-25
Ev Mt 9, 9-13

JP in Sem categoria 6 Junho, 2026

quem duvida sou eu

Tenho insistido comigo mesmo, incluindo neste blog e em algures lugares públicos, sobre a importância da dúvida na fé esclarecida e positivamente nua. Digo por vezes, com alguma consciência de que estico linguagem para polarizar uma mensagem (a do valor da dúvida na crença…) que ‘tenho dúvidas da existência de Deus, embora menos dúvidas da experiência de Deus’. Com alguma dificuldade semântica, talvez possa dizer, melhor, que a minha dúvida é mais sobre mim mesmo, sobre como me (des)entender enquanto humano face à existência de Deus. Qualquer coisa do tipo que, em certo lugar escatológico, fosse eu encostado para atirar uma única seta de dúvida, a dirigiria a mim como alvo e não a Deus.

JP in Sem categoria 2 Junho, 2026

qual é a pergunta?

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Pd 2, 4-9

«Prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança»

Em tempo de Santíssima Trindade, mistério da complexidade simples de um amor crucial circulante, Pedro, seguidor de Cristo, convida-nos a oferecer as razões da nossa esperança. O trabalho dinâmico de construção pessoal e comunitária das razões da nossa fé é essencial. Sendo a fé vivida uma adesão, passe-se o pleonasmo, de fé e de vida, não são irrelevantes as razões da nossa esperança. O curioso nesta referência da epístola de São Pedro é a nuance de estarmos sempre ‘prontos a responder’. Isso implica que o gesto para com os outros pode ser mais escutante, mais levantador das perguntas do que do lado do forçamento de afirmações categóricas e militantes. Para os cristãos, Jesus é a resposta. Mas percebe-se algo muito importante e nada óbvio, bem apontado por Tomás Halík: qual é a pergunta?…

Este texto repete em parte ou no todo palavras já escritas neste blog, noutro contexto

L 1 At 6, 1-7; Sl 33 (34), 1-2. 4-5. 18-19
L 2 1Pd 2, 4-9
Ev Jo 14, 1-12

DOMINGO IX DO TEMPO COMUM – SANTÍSSIMA TRINDADE

L 1 Ex 34, 4b-6. 8-9; Sl Dn 3, 52.53-54.55acd-56
L 2 2Cor 13, 11-13
Ev Jo 3, 16-18

JP in Sem categoria 30 Maio, 2026

beleza como impulso

Da natureza ao espanto da criação humana, das enormes coisas à beleza do insignificante, tudo pode ser deslumbramento impactante e agradecido. Esta beleza que esmaga, a da natureza e a da vida, ajudam-nos e inventar esperança e a fazermos do mundo um lugar onde muitos mais outros possam fruir da beleza.

JP in Sem categoria 28 Maio, 2026

liberdade para o desejo


Suponhamos um qualquer desejo. Uma das condições que nos coloca na livre indiferença em relação a esse desejo é elaborar assim, em quase-contra-natura: “se estou pronto para, diante desse desejo realizado, ficar igualmente plano e inteiro, aconteça o que acontecer, então estou ‘espiritualmente pronto’ para o receber”. É nesta linha que se percebe a radical importância de trabalhar o receber na vida espiritual. Esticando a corda, face ao desejo da vida, pode ser caminho morrer, já, por amor. Assim preparado para morte, se recebe em plenitude a vida que vem.

JP in Sem categoria 26 Maio, 2026

paz e realidade

Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jo 20, 19-23

«a paz esteja convosco»

 Em tempo de Pentecostes os cristãos celebram o Espírito Santo. É a transcendência amorosa que sopra no tempo e no espaço. Seria (quaisi) panteísta identificar o Espírito Santo com a realidade, mas, por outro lado, vemos muitas vezes entendimentos etéreos de desproporção mística e (auto) engano, que fomentam uma esquizofrenia entre o corpo e o espírito, entre o transcendente e o imanente. Ora o que liberta e confere a Paz que Jesus quer dar é a integração amorosa das coisas e das essências, do Espírito que flui e que se torna vida real e concreta em nós. A Paz é desejo e Espírito mas vale se for real. Ela – a paz – está por construir e as nossas mãos são necessárias.

Este texto é adaptado em parte ou na totalidade de palavras anteriores já publicadas.

DOMINGO DE PENTECOSTES


L 1 At 2, 1-11; Sl 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34
L 2 1Cor 12, 3b-7. 12-13 ou (própria do Ano B): Gl 5, 16-25
Ev Jo 20, 19-23 ou (própria do Ano B): Jo 15, 26-27; 16, 12-15

JP in Sem categoria 24 Maio, 2026

a palavra Deus não é Deus


Diz bem Javier Melloni quando sintetiza: “A palavra Deus não é Deus”. Esta indizibilidade de Deus dá força à mística que importa e fragiliza – positivamente-  a instrumentação das religiões.

JP in Sem categoria 22 Maio, 2026