mudanças
Há uma quase-tautologia que convém trazer à lembrança: para mudar temos que mudar algo.
Há uma quase-tautologia que convém trazer à lembrança: para mudar temos que mudar algo.
Tensões científicas, sociais, filosóficas e teológicas se levantam no diálogo entre ciência e religião. Se a religião colidir desnecessariamente com a ciência e a cultura do nosso tempo, não consegue fazer-se entender e não atrai, já que a cultura actual, e bem, não se deixa ludibriar por discursos que sejam incompatíveis com o paradigma da sociedade do conhecimento em que vivemos. A religião é obviamente diferente da abordagem científica, mas muito perde se se apresentar como incompatível com as verdades científicas.
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Jo 4, 5-42
“Dá-Me de beber” é excelente mote de Quaresma, de sinal de água no deserto do caminho. Este diálogo de Jesus com a Samaritana é, nas boas palavras de Tolentino Mendonça, o ‘elogio da sede’. A sede de Deus (o seu sonho amoroso para o mundo) transforma-se na nossa sede. As sedes unidas, a nossa e a do criador, criam as aberturas de caminho para um grande sentido: é o encontro da sede com a água viva, é o encontro do nada com o tudo, é o encontro da pequenez com a plenitude, é o encontro da morte com a vida, que estamos a preparar.
L 1: Ex 17, 3-7; Sl 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9
L 2: Rm 5, 1-2. 5-8
Ev: Jo 4, 5-42 ou Jo 4, 5-15. 19b-26. 39a. 40-42
Samaritana
A verdadeira pérola
não é a água
mas procurar a sede
de uma fonte
certa e abundante.
A verdadeira riqueza
não é a água,
é a sede de a querer.
É este vazio,
esta hospitalidade
de crer beber
que me convoca
a construir.
A graça que peço
é a da sede,
que a água é certa!
A missa, mais do que solenidade, precisa de intensidade: intensidade de paz e partilha, bem entendido…
Não sei se alguma fé mais míope não rezaria o Pai Nosso, em vez, com a expressão “seja feita a Vossa vontadinha…”, contemplando certo capricho divino. Ora é um outro, este “faça-se” de Deus, que espreita em tudo o que acontece e, particularmente, na natureza abundante….
Ao longo da minha vida e ainda hoje, porventura mais ainda, sou criticado, explicita e implicitamente, com os olhos postos no meu ‘ser religioso’. Há tipicamente dois motivos de tais ‘setas’: a) porque há traços de incoerência entre o que professo e o que vivo; b) porque o Evangelho, nas suas exigências, quando vivido, tem um lado que desinstala e incomoda. O discernimento no acolhimento da crítica cristã está em saber se o feedback que vem é do tipo a) ou do tipo b). no meu caso tenho sentido como desoladora a circunstância a) e como consoladora a circunstância b). Confesso ainda que raramente me encontro em b) e muitas vezes me encontro em a). Muito ‘chão para andar’, portanto…
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Mt 17, 1-9
«o Seu rosto ficou resplandecente como o Sol»
A transfiguração de Jesus revela com clareza a filiação de Jesus. Em chave de leitura de fé, esta cena aponta-nos o Filho de Deus. Implícito, está igualmente o convite aos que, olhando Jesus, se deixam transfigurar a eles próprios. É este também o desafio que se coloca a cada um de nós: transfigurarmo-nos, reconhecermo-nos sempre buscados e vivermos como Filhos de Deus, assemelhando-nos a Ele, nesse reconhecimento e nessa forma de viver. No limite, fruto da alegria brotante de uma vida transfigurada, o nosso rosto poderá ser “resplandecente como o Sol”. Está visto que a Quaresma, enquanto caminho de regresso a Deus, não tem a ver com rostos macambúzios…
NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.
DOMINGO II DA QUARESMA
L 1 Gn 12, 1-4a; Sl 32 (33), 4-5. 18-19. 20 e 22
L 2 2Tm 1, 8b-10
Ev Mt 17, 1-9
Amanhã faço anos de batizado: foi, melhor, é um mergulho amoroso e misterioso. Ficaremos sempre aquém de saber, sentir e saborear esta festa. Os batizados estão ainda a batizar-se. Estão a mergulhar no imenso amor da vida, que existe em tudo o que nos é dado, nos outros humanos, na natureza, nos confortos e nos desconfortos que tecem o tempo e o espaço que por graça vamos pisando. Vamo-nos batizando, portanto…
Em muitos casos, aferindo a oportunidade pedagógica, em vez de ‘estás zangado?’, talvez possamos perguntar, provocantemente: ‘continuas a escolher estar zangado?…´
Na liturgia católica romana deste fim de semana escuta-se Rm 5, 12-19
«Onde abundou o pecado, superabundou a graça»
Em início de Quaresma, período de inspiração preparatória para os cristãos, fica bem tomar nota do ponto de partida e do lastro que move a própria Quaresma: a verdade da nossa condição (fragilidade) mistura-se com a confiança na ideia vivida de um sentido (fé). Não há Quaresma fecunda, como preparação para a Páscoa (para a ponte que importa) sem esse duplo sentido: somos seres de liberdade que, por fragilidade intrínseca, nem sempre acertamos o alvo (pecado) mas, ao mesmo tempo e mais relevante para a vida da fé, a nova oportunidade, o perdão e a graça, superam essa mesma fragilidade de que somos tecidos. Por isso São Paulo diz aos Romanos (e a nós mesmos) que onde abunda o pecado (a humanidade), abunda mais (superabunda) a graça (Deus). É que a verdadeira conversão, a Quaresma que nos embala, é a rendição a este amor superabundante de Deus. É esta a graça que basta…
NOTA: Este texto é repetido/ajustado a partir de evento já publicado neste blog anteriormente.
DOMINGO I DA QUARESMA
L 1 Gn 2, 7-9 – 3, 1-7; Sl 50 (51), 3-4. 5-6a. 12-13. 14 e 17
L 2 Rm 5, 12-19 ou Rm 5, 12. 17-19
Ev Mt 4, 1-11